Há dias em que a gente decide abrir janelas que ficaram fechadas por anos. Não para reviver a dor como quem cutuca ferida antiga, mas para deixá-la respirar e, enfim, entender que tudo o que fomos um dia nos acompanha de maneira silenciosa. Abrir as janelas da dor é aceitar que, para ser uma pessoa de princípios, respeito e — quem diria — felicidade, é preciso revisitar tanto o que incomodou quanto o que fez o coração vibrar.
Aprendi isso lentamente. Entendi que quem passa por provas no passado ganha músculos para as lutas do presente e do futuro. A maturidade, descobri, não chega de repente; ela se insinua nas cicatrizes.
Lembro do início da minha vida escolar como quem percorre uma rua antiga de uma cidade que ainda mora dentro de mim. Eu, com minhas roupas simples, fruto das condições dos meus pais, trazia no corpo a tonalidade diferente da maioria e, no olhar, a solidão tímida de quem tenta se encaixar. Morava longe, numa região periférica que muitos preferiam fingir que não existia. E, para completar a receita, aprendia rápido — e, ao contrário do que se imagina, isso também incomodava.
A timidez era minha companheira constante, dessas que caminham ao lado sem pedir permissão. E foi ela que, na adolescência, me empurrou para um refúgio perigoso: o alcoolismo. Ali, nas bebidas, eu encontrava uma espécie de silêncio temporário para os barulhos que carregava dentro de mim. Foram anos assim — tropeços, fugas, quedas — até que a fé entrou pela porta da minha vida com a delicadeza de quem acende uma luz sem fazer alarde. E foi com essa luz que comecei a me reconstruir, tijolo por tijolo, entendimento por entendimento.
Não, esta crônica não é drama, muito menos vitimismo. É só um lembrete: todos nós carregamos nossas cruzes. E quando aprendemos a caminhar com elas, sem reclamar, percebemos algo que sempre esteve ali — Deus. Silencioso, paciente, constante. Ele nunca deixou de ajudar a carregar o peso que eu pensava ser só meu.
E então compreendi: somos imagem e semelhança d’Ele. E se o Filho unigênito suportou a própria cruz por nós, sem que estivéssemos ao lado para ajudar, é porque o amor que nos sustenta é maior do que qualquer dor que possamos recordar. Talvez abrir as janelas da dor seja, no fundo, permitir que esse amor entre e faça morada.
Hoje, com tudo o que vivi, posso dizer: sou uma pessoa feliz, realizada e grato pela herança de fé e caráter que recebi dos meus pais Manoel Felipe e Severina Dantas que me transformaram através de seus ensinamentos na pessoa que hoje sou.
POR CARLOS FELIPE- BASEADO EM EXPERIÊNCIAS REAIS