EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS

Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus;
2  Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti.
3  Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas.
4  Apareceu Joäo batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissäo dos pecados.
5  E toda a província da Judéia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordäo, confessando os seus pecados.
6  E Joäo andava vestido de pêlos de camelo, e com um cinto de couro em redor de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre.
7  E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual näo sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas.
8  Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.
9  E aconteceu naqueles dias que Jesus, tendo ido de Nazaré da Galiléia, foi batizado por Joäo, no Jordäo.
10  E, logo que saiu da água, viu os céus abertos, e o Espírito, que como pomba descia sobre ele.
11  E ouviu-se uma voz dos céus, que dizia: Tu és o meu Filho amado em quem me comprazo.
12  E logo o Espírito o impeliu para o deserto.
13  E ali esteve no deserto quarenta dias, tentado por Satanás. E vivia entre as feras, e os anjos o serviam.
14  E, depois que Joäo foi entregue à prisäo, veio Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho do reino de Deus,
15  E dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho.
16  E, andando junto do mar da Galiléia, viu Simäo, e André, seu irmäo, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores.
17  E Jesus lhes disse: Vinde após mim, e eu farei que sejais pescadores de homens.
18  E, deixando logo as suas redes, o seguiram.
19  E, passando dali um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e Joäo, seu irmäo, que estavam no barco consertando as redes,
20  E logo os chamou. E eles, deixando o seu pai Zebedeu no barco com os jornaleiros, foram após ele.
21  Entraram em Cafarnaum e, logo no sábado, indo ele à sinagoga, ali ensinava.
22  E maravilharam-se da sua doutrina, porque os ensinava como tendo autoridade, e näo como os escribas.
23  E estava na sinagoga deles um homem com um espírito imundo, o qual exclamou,
24  Dizendo: Ah! que temos contigo, Jesus Nazareno? Vieste destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus.
25  E repreendeu-o Jesus, dizendo: Cala-te, e sai dele.
26  Entäo o espírito imundo, convulsionando-o, e clamando com grande voz, saiu dele.
27  E todos se admiraram, a ponto de perguntarem entre si, dizendo: Que é isto? Que nova doutrina é esta? Pois com autoridade ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem!
28  E logo correu a sua fama por toda a província da Galiléia.
29  E logo, saindo da sinagoga, foram à casa de Simäo e de André com Tiago e Joäo.
30  E a sogra de Simäo estava deitada com febre; e logo lhe falaram dela.
31  Entäo, chegando-se a ela, tomou-a pela mäo, e levantou-a; e imediatamente a febre a deixou, e servia-os.
32  E, tendo chegado a tarde, quando já se estava pondo o sol, trouxeram-lhe todos os que se achavam enfermos, e os endemoninhados.
33  E toda a cidade se ajuntou à porta.
34  E curou muitos que se achavam enfermos de diversas enfermidades, e expulsou muitos demónios, porém näo deixava falar os demónios, porque o conheciam.
35  E, levantando-se de manhä, muito cedo, fazendo ainda escuro, saiu, e foi para um lugar deserto, e ali orava.
36  E seguiram-no Simäo e os que com ele estavam.
37  E, achando-o, lhe disseram: Todos te buscam.
38  E ele lhes disse: Vamos às aldeias vizinhas, para que eu ali também pregue; porque para isso vim.
39  E pregava nas sinagogas deles, por toda a Galiléia, e expulsava os demónios.
40  E aproximou-se dele um leproso que, rogando-lhe, e pondo-se de joelhos diante dele, lhe dizia: Se queres, bem podes limpar-me.
41  E Jesus, movido de grande compaixäo, estendeu a mäo, e tocou-o, e disse-lhe: Quero, sê limpo.
42  E, tendo ele dito isto, logo a lepra desapareceu, e ficou limpo.
43  E, advertindo-o severamente, logo o despediu.
44  E disse-lhe: Olha, näo digas nada a ninguém; porém vai, mostra-te ao sacerdote, e oferece pela tua purificaçäo o que Moisés determinou, para lhes servir de testemunho.
45  Mas, tendo ele saído, começou a apregoar muitas coisas, e a divulgar o que acontecera; de sorte que Jesus já näo podia entrar publicamente na cidade, mas conservava-se fora em lugares desertos; e de todas as partes iam ter com ele.


Capitulo 2

1  E alguns dias depois entrou outra vez em Cafarnaum, e soube-se que estava em casa.
2  E logo se ajuntaram tantos, que nem ainda nos lugares junto à porta cabiam; e anunciava-lhes a palavra.
3  E vieram ter com ele conduzindo um paralítico, trazido por quatro.
4  E, näo podendo aproximar-se dele, por causa da multidäo, descobriram o telhado onde estava, e, fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico.
5  E Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: Filho, perdoados estäo os teus pecados.
6  E estavam ali assentados alguns dos escribas, que arrazoavam em seus coraçöes, dizendo:
7  Por que diz este assim blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senäo Deus?
8  E Jesus, conhecendo logo em seu espírito que assim arrazoavam entre si, lhes disse: Por que arrazoais sobre estas coisas em vossos coraçöes?
9  Qual é mais fácil? dizer ao paralítico: Estäo perdoados os teus pecados; ou dizer-lhe: Levanta-te, e toma o teu leito, e anda?
10  Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico),
11  A ti te digo: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para tua casa.
12  E levantou-se e, tomando logo o leito, saiu em presença de todos, de sorte que todos se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: Nunca tal vimos.
13  E tornou a sair para o mar, e toda a multidäo ia ter com ele, e ele os ensinava.
14  E, passando, viu Levi, filho de Alfeu, sentado na recebedoria, e disse-lhe: Segue-me. E, levantando-se, o seguiu.
15  E aconteceu que, estando sentado à mesa em casa deste, também estavam sentados à mesa com Jesus e seus discípulos muitos publicanos e pecadores; porque eram muitos, e o tinham seguido.
16  E os escribas e fariseus, vendo-o comer com os publicanos e pecadores, disseram aos seus discípulos: Por que come e bebe ele com os publicanos e pecadores?
17  E Jesus, tendo ouvido isto, disse-lhes: Os säos näo necessitam de médico, mas, sim, os que estäo doentes; eu näo vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento.
18  Ora, os discípulos de Joäo e os fariseus jejuavam; e foram e disseram-lhe: Por que jejuam os discípulos de Joäo e os dos fariseus, e näo jejuam os teus discípulos?
19  E Jesus disse-lhes: Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, näo podem jejuar;
20  Mas dias viräo em que lhes será tirado o esposo, e entäo jejuaräo naqueles dias.
21  Ninguém deita remendo de pano novo em roupa velha; doutra sorte o mesmo remendo novo rompe o velho, e a rotura fica maior.
22  E ninguém deita vinho novo em odres velhos; doutra sorte, o vinho novo rompe os odres e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; o vinho novo deve ser deitado em odres novos.
23  E aconteceu que, passando ele num sábado pelas searas, os seus discípulos, caminhando, começaram a colher espigas.
24  E os fariseus lhe disseram: Vês? Por que fazem no sábado o que näo é lícito?
25  Mas ele disse-lhes: Nunca lestes o que fez Davi, quando estava em necessidade e teve fome, ele e os que com ele estavam?
26  Como entrou na casa de Deus, no tempo de Abiatar, sumo sacerdote, e comeu os päes da proposiçäo, dos quais näo era lícito comer senäo aos sacerdotes, dando também aos que com ele estavam?
27  E disse-lhes: O sábado foi feito por causa do homem, e näo o homem por causa do sábado.
28  Assim o Filho do homem até do sábado é Senhor.


Capitulo 3

1  E outra vez entrou na sinagoga, e estava ali um homem que tinha uma das mäos mirrada.
2  E estavam observando-o se curaria no sábado, para o acusarem.
3  E disse ao homem que tinha a mäo mirrada: Levanta-te e vem para o meio.
4  E perguntou-lhes: É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal? salvar a vida, ou matar? E eles calaram-se.
5  E, olhando para eles em redor com indignaçäo, condoendo-se da dureza do seu coraçäo, disse ao homem: Estende a tua mäo. E ele a estendeu, e foi-lhe restituída a sua mäo, sä como a outra.
6  E, tendo saído os fariseus, tomaram logo conselho com os herodianos contra ele, procurando ver como o matariam.
7  E retirou-se Jesus com os seus discípulos para o mar, e seguia-o uma grande multidäo da Galiléia e da Judéia,
8  E de Jerusalém, e da Iduméia, e de além do Jordäo, e de perto de Tiro e de Sidom; uma grande multidäo que, ouvindo quäo grandes coisas fazia, vinha ter com ele.
9  E ele disse aos seus discípulos que lhe tivessem sempre pronto um barquinho junto dele, por causa da multidäo, para que o näo oprimisse,
10  Porque tinha curado a muitos, de tal maneira que todos quantos tinham algum mal se arrojavam sobre ele, para lhe tocarem.
11  E os espíritos imundos vendo-o, prostravam-se diante dele, e clamavam, dizendo: Tu és o Filho de Deus.
12  E ele os ameaçava muito, para que näo o manifestassem.
13  E subiu ao monte, e chamou para si os que ele quis; e vieram a ele.
14  E nomeou doze para que estivessem com ele e os mandasse a pregar,
15  E para que tivessem o poder de curar as enfermidades e expulsar os demónios:
16  A Simäo, a quem pós o nome de Pedro,
17  E a Tiago, filho de Zebedeu, e a Joäo, irmäo de Tiago, aos quais pós o nome de Boanerges, que significa: Filhos do troväo;
18  E a André, e a Filipe, e a Bartolomeu, e a Mateus, e a Tomé, e a Tiago, filho de Alfeu, e a Tadeu, e a Simäo o Zelote,
19  E a Judas Iscariotes, o que o entregou.
20  E foram para uma casa. E afluiu outra vez a multidäo, de tal maneira que nem sequer podiam comer päo.
21  E, quando os seus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si.
22  E os escribas, que tinham descido de Jerusalém, diziam: Tem Belzebu, e pelo príncipe dos demónios expulsa os demónios.
23  E, chamando-os a si, disse-lhes por parábolas: Como pode Satanás expulsar Satanás?
24  E, se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino näo pode subsistir;
25  E, se uma casa se dividir contra si mesma, tal casa näo pode subsistir.
26  E, se Satanás se levantar contra si mesmo, e for dividido, näo pode subsistir; antes tem fim.
27  Ninguém pode roubar os bens do valente, entrando-lhe em sua casa, se primeiro näo maniatar o valente; e entäo roubará a sua casa.
28  Na verdade vos digo que todos os pecados seräo perdoados aos filhos dos homens, e toda a sorte de blasfêmias, com que blasfemarem;
29  Qualquer, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, nunca obterá perdäo, mas será réu do eterno juízo
30  (Porque diziam: Tem espírito imundo).
31  Chegaram, entäo, seus irmäos e sua mäe; e, estando fora, mandaram-no chamar.
32  E a multidäo estava assentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mäe e teus irmäos te procuram, e estäo lá fora.
33  E ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mäe e meus irmäos?
34  E, olhando em redor para os que estavam assentados junto dele, disse: Eis aqui minha mäe e meus irmäos.
35  Porquanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmäo, e minha irmä, e minha mäe.


Capitulo 4

1  E outra vez começou a ensinar junto do mar, e ajuntou-se a ele grande multidäo, de sorte que ele entrou e assentou-se num barco, sobre o mar; e toda a multidäo estava em terra junto do mar.
2  E ensinava-lhes muitas coisas por parábolas, e lhes dizia na sua doutrina:
3  Ouvi: Eis que saiu o semeador a semear.
4  E aconteceu que semeando ele, uma parte da semente caiu junto do caminho, e vieram as aves do céu, e a comeram;
5  E outra caiu sobre pedregais, onde näo havia muita terra, e nasceu logo, porque näo tinha terra profunda;
6  Mas, saindo o sol, queimou-se; e, porque näo tinha raiz, secou-se.
7  E outra caiu entre espinhos e, crescendo os espinhos, a sufocaram e näo deu fruto.
8  E outra caiu em boa terra e deu fruto, que vingou e cresceu; e um produziu trinta, outro sessenta, e outro cem.
9  E disse-lhes: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
10  E, quando se achou só, os que estavam junto dele com os doze interrogaram-no acerca da parábola.
11  E ele disse-lhes: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estäo de fora todas estas coisas se dizem por parábolas,
12  Para que, vendo, vejam, e näo percebam; e, ouvindo, ouçam, e näo entendam; para que näo se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados.
13  E disse-lhes: Näo percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?
14  O que semeia, semeia a palavra;
15  E, os que estäo junto do caminho säo aqueles em quem a palavra é semeada; mas, tendo-a eles ouvido, vem logo Satanás e tira a palavra que foi semeada nos seus coraçöes.
16  E da mesma forma os que recebem a semente sobre pedregais; os quais, ouvindo a palavra, logo com prazer a recebem;
17  Mas näo têm raiz em si mesmos, antes säo temporäos; depois, sobrevindo tribulaçäo ou perseguiçäo, por causa da palavra, logo se escandalizam.
18  E outros säo os que recebem a semente entre espinhos, os quais ouvem a palavra;
19  Mas os cuidados deste mundo, e os enganos das riquezas e as ambiçöes de outras coisas, entrando, sufocam a palavra, e fica infrutífera.
20  E os que recebem a semente em boa terra säo os que ouvem a palavra e a recebem, e däo fruto, um a trinta, outro a sessenta, outro a cem, por um.
21  E disse-lhes: Vem porventura a candeia para se meter debaixo do alqueire, ou debaixo da cama? näo vem antes para se colocar no velador?
22  Porque nada há encoberto que näo haja de ser manifesto; e nada se faz para ficar oculto, mas para ser descoberto.
23  Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.
24  E disse-lhes: Atendei ao que ides ouvir. Com a medida com que medirdes vos mediräo a vós, e ser-vos-á ainda acrescentada a vós que ouvis.
25  Porque ao que tem, ser-lhe-á dado; e, ao que näo tem, até o que tem lhe será tirado.
26  E dizia: O reino de Deus é assim como se um homem lançasse semente à terra.
27  E dormisse, e se levantasse de noite ou de dia, e a semente brotasse e crescesse, näo sabendo ele como.
28  Porque a terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, por último o gräo cheio na espiga.
29  E, quando já o fruto se mostra, mete-se-lhe logo a foice, porque está chegada a ceifa.
30  E dizia: A que assemelharemos o reino de Deus? ou com que parábola o representaremos?
31  É como um gräo de mostarda, que, quando se semeia na terra, é a menor de todas as sementes que há na terra;
32  Mas, tendo sido semeado, cresce; e faz-se a maior de todas as hortaliças, e cria grandes ramos, de tal maneira que as aves do céu podem aninhar-se debaixo da sua sombra.
33  E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender.
34  E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos.
35  E, naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes: Passemos para o outro lado.
36  E eles, deixando a multidäo, o levaram consigo, assim como estava, no barco; e havia também com ele outros barquinhos.
37  E levantou-se grande temporal de vento, e subiam as ondas por cima do barco, de maneira que já se enchia.
38  E ele estava na popa, dormindo sobre uma almofada, e despertaram-no, dizendo-lhe: Mestre, näo se te dá que pereçamos?
39  E ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança.
40  E disse-lhes: Por que sois täo tímidos? Ainda näo tendes fé?
41  E sentiram um grande temor, e diziam uns aos outros: Mas quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?


1  E, partindo dali, chegou à sua pátria, e os seus discípulos o seguiram.
2  E, chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-o, se admiravam, dizendo: De onde lhe vêm estas coisas? e que sabedoria é esta que lhe foi dada? e como se fazem tais maravilhas por suas mäos?
3  Näo é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmäo de Tiago, e de José, e de Judas e de Simäo? e näo estäo aqui conosco suas irmäs? E escandalizavam-se nele.
4  E Jesus lhes dizia: Näo há profeta sem honra senäo na sua pátria, entre os seus parentes, e na sua casa.
5  E näo podia fazer ali obras maravilhosas; somente curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mäos.
6  E estava admirado da incredulidade deles. E percorreu as aldeias vizinhas, ensinando.
7  Chamou a si os doze, e começou a enviá-los a dois e dois, e deu-lhes poder sobre os espíritos imundos;
8  E ordenou-lhes que nada tomassem para o caminho, senäo somente um bordäo; nem alforje, nem päo, nem dinheiro no cinto;
9  Mas que calçassem alparcas, e que näo vestissem duas túnicas.
10  E dizia-lhes: Na casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali.
11  E tantos quantos vos näo receberem, nem vos ouvirem, saindo dali, sacudi o pó que estiver debaixo dos vossos pés, em testemunho contra eles. Em verdade vos digo que haverá mais toleráncia no dia de juízo para Sodoma e Gomorra, do que para os daquela cidade.
12  E, saindo eles, pregavam que se arrependessem.
13  E expulsavam muitos demónios, e ungiam muitos enfermos com óleo, e os curavam.
14  E ouviu isto o rei Herodes (porque o nome de Jesus se tornara notório), e disse: Joäo, o que batizava, ressuscitou dentre os mortos, e por isso estas maravilhas operam nele.
15  Outros diziam: É Elias. E diziam outros: É um profeta, ou como um dos profetas.
16  Herodes, porém, ouvindo isto, disse: Este é Joäo, que mandei degolar; ressuscitou dentre os mortos.
17  Porquanto o mesmo Herodes mandara prender a Joäo, e encerrá-lo maniatado no cárcere, por causa de Herodias, mulher de Filipe, seu irmäo, porquanto tinha casado com ela.
18  Pois Joäo dizia a Herodes: Näo te é lícito possuir a mulher de teu irmäo.
19  E Herodias o espiava, e queria matá-lo, mas näo podia.
20  Porque Herodes temia a Joäo, sabendo que era homem justo e santo; e guardava-o com segurança, e fazia muitas coisas, atendendo-o, e de boa mente o ouvia.
21  E, chegando uma ocasiäo favorável em que Herodes, no dia dos seus anos, dava uma ceia aos grandes, e tribunos, e príncipes da Galiléia,
22  Entrou a filha da mesma Herodias, e dançou, e agradou a Herodes e aos que estavam com ele à mesa. Disse entäo o rei à menina: Pede-me o que quiseres, e eu to darei.
23  E jurou-lhe, dizendo: Tudo o que me pedires te darei, até metade do meu reino.
24  E, saindo ela, perguntou a sua mäe: Que pedirei? E ela disse: A cabeça de Joäo o Batista.
25  E, entrando logo, apressadamente, pediu ao rei, dizendo: Quero que imediatamente me dês num prato a cabeça de Joäo o Batista.
26  E o rei entristeceu-se muito; todavia, por causa do juramento e dos que estavam com ele à mesa, näo lha quis negar.
27  E, enviando logo o rei o executor, mandou que lhe trouxessem ali a cabeça de Joäo. E ele foi, e degolou-o na prisäo;
28  E trouxe a cabeça num prato, e deu-a à menina, e a menina a deu a sua mäe.
29  E os seus discípulos, tendo ouvido isto, foram, tomaram o seu corpo, e o puseram num sepulcro.
30  E os apóstolos ajuntaram-se a Jesus, e contaram-lhe tudo, tanto o que tinham feito como o que tinham ensinado.
31  E ele disse-lhes: Vinde vós, aqui à parte, a um lugar deserto, e repousai um pouco. Porque havia muitos que iam e vinham, e näo tinham tempo para comer.
32  E foram sós num barco para um lugar deserto.
33  E a multidäo viu-os partir, e muitos o conheceram; e correram para lá, a pé, de todas as cidades, e ali chegaram primeiro do que eles, e aproximavam-se dele.
34  E Jesus, saindo, viu uma grande multidäo, e teve compaixäo deles, porque eram como ovelhas que näo têm pastor; e começou a ensinar-lhes muitas coisas.
35  E, como o dia fosse já muito adiantado, os seus discípulos se aproximaram dele, e lhe disseram: O lugar é deserto, e o dia está já muito adiantado.
36  Despede-os, para que väo aos lugares e aldeias circunvizinhas, e comprem päo para si; porque näo têm que comer.
37  Ele, porém, respondendo, lhes disse: Dai-lhes vós de comer. E eles disseram-lhe: Iremos nós, e compraremos duzentos dinheiros de päo para lhes darmos de comer?
38  E ele disse-lhes: Quantos päes tendes? Ide ver. E, sabendo-o eles, disseram: Cinco päes e dois peixes.
39  E ordenou-lhes que fizessem assentar a todos, em ranchos, sobre a erva verde.
40  E assentaram-se repartidos de cem em cem, e de cinqüenta em cinqüenta.
41  E, tomando ele os cinco päes e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, abençoou e partiu os päes, e deu-os aos seus discípulos para que os pusessem diante deles. E repartiu os dois peixes por todos.
42  E todos comeram, e ficaram fartos;
43  E levantaram doze alcofas cheias de pedaços de päo e de peixe.
44  E os que comeram os päes eram quase cinco mil homens.
45  E logo obrigou os seus discípulos a subir para o barco, e passar adiante, para o outro lado, a Betsaida, enquanto ele despedia a multidäo.
46  E, tendo-os despedido, foi ao monte a orar.
47  E, sobrevindo a tarde, estava o barco no meio do mar e ele, sozinho, em terra.
48  E vendo que se fatigavam a remar, porque o vento lhes era contrário, perto da quarta vigília da noite aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante.
49  Mas, quando eles o viram andar sobre o mar, cuidaram que era um fantasma, e deram grandes gritos.
50  Porque todos o viam, e perturbaram-se; mas logo falou com eles, e disse-lhes: Tende bom ánimo; sou eu, näo temais.
51  E subiu para o barco, para estar com eles, e o vento se aquietou; e entre si ficaram muito assombrados e maravilhados;
52  Pois näo tinham compreendido o milagre dos päes; antes o seu coraçäo estava endurecido.
53  E, quando já estavam no outro lado, dirigiram-se à terra de Genesaré, e ali atracaram.
54  E, saindo eles do barco, logo o conheceram;
55  E, correndo toda a terra em redor, começaram a trazer em leitos, aonde quer que sabiam que ele estava, os que se achavam enfermos.
56  E, onde quer que entrava, ou em cidade, ou aldeias, ou no campo, apresentavam os enfermos nas praças, e rogavam-lhe que os deixasse tocar ao menos na orla da sua roupa; e todos os que lhe tocavam saravam.


Capitulo 71  E ajuntaram-se a ele os fariseus, e alguns dos escribas que tinham vindo de Jerusalém.
2  E, vendo que alguns dos seus discípulos comiam päo com as mäos impuras, isto é, por lavar, os repreendiam.
3  Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradiçäo dos antigos, näo comem sem lavar as mäos muitas vezes;
4  E, quando voltam do mercado, se näo se lavarem, näo comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas.
5  Depois perguntaram-lhe os fariseus e os escribas: Por que näo andam os teus discípulos conforme a tradiçäo dos antigos, mas comem o päo com as mäos por lavar?
6  E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coraçäo está longe de mim;
7  Em väo, porém, me honram, Ensinando doutrinas que säo mandamentos de homens.
8  Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradiçäo dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas.
9  E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradiçäo.
10  Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mäe; e quem maldisser, ou o pai ou a mäe, certamente morrerá.
11  Vós, porém, dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mäe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbä, isto é, oferta ao Senhor;
12  Nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mäe,
13  Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradiçäo, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas.
14  E, chamando outra vez a multidäo, disse-lhes: Ouvi-me vós, todos, e compreendei.
15  Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem.
16  Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.
17  Depois, quando deixou a multidäo, e entrou em casa, os seus discípulos o interrogavam acerca desta parábola.
18  E ele disse-lhes: Assim também vós estais sem entendimento? Näo compreendeis que tudo o que de fora entra no homem näo o pode contaminar,
19  Porque näo entra no seu coraçäo, mas no ventre, e é lançado fora, ficando puras todas as comidas?
20  E dizia: O que sai do homem isso contamina o homem.
21  Porque do interior do coraçäo dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituiçöes, os homicídios,
22  Os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissoluçäo, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura.
23  Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem.
24  E, levantando-se dali, foi para os termos de Tiro e de Sidom. E, entrando numa casa, näo queria que alguém o soubesse, mas näo póde esconder-se;
25  Porque uma mulher, cuja filha tinha um espírito imundo, ouvindo falar dele, foi e lançou-se aos seus pés.
26  E esta mulher era grega, sirofenícia de naçäo, e rogava-lhe que expulsasse de sua filha o demónio.
27  Mas Jesus disse-lhe: Deixa primeiro saciar os filhos; porque näo convém tomar o päo dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos.
28  Ela, porém, respondeu, e disse-lhe: Sim, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos.
29  Entäo ele disse-lhe: Por essa palavra, vai; o demónio já saiu de tua filha.
30  E, indo ela para sua casa, achou a filha deitada sobre a cama, e que o demónio já tinha saído.
31  E ele, tornando a sair dos termos de Tiro e de Sidom, foi até ao mar da Galiléia, pelos confins de Decápolis.
32  E trouxeram-lhe um surdo, que falava dificilmente; e rogaram-lhe que pusesse a mäo sobre ele.
33  E, tirando-o à parte, de entre a multidäo, pós-lhe os dedos nos ouvidos; e, cuspindo, tocou-lhe na língua.
34  E, levantando os olhos ao céu, suspirou, e disse: Efatá; isto é, Abre-te.
35  E logo se abriram os seus ouvidos, e a prisäo da língua se desfez, e falava perfeitamente.
36  E ordenou-lhes que a ninguém o dissessem; mas, quanto mais lhos proibia, tanto mais o divulgavam.
37  E, admirando-se sobremaneira, diziam: Tudo faz bem; faz ouvir os surdos e talar os mudos.


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