Todo dia bom no Sertão do Seridó é dia de chuvas. E se for numa sexta-feira , então, nem se fala. Chuvas em uma sexta-feira torna a feira do sábado mais alegre. Os seridoenses se esbaldam em suas fabulações e as vozes se impostam além do normal. E tome histórias de chuvas e previsões de um bom inverno. As manifestações de crenças se multiplicam. Os homens tiram seus chapéus, trazem para lado esquerdo do peito e olham para o céu. As mulheres juntam suas mãos e fazem gestos de preces. Todos agradecem a Deus por atender suas orações.
Hoje, antes de ir à feira livre, percorro cedinho os caminhos da caatinga. Por algum momento, destino meus ouvidos à percussão dos chocalhos do gado no pasto. Sim, eles são liberados dos currais logo nas primeiras chuvas. E não há como ficar alheio à passarada. Como demonstram felicidade os pássaros, ainda com suas penas preaquecidas, ensaiando voos e preparando seus bicos para o canto matinal!
Escuto barulho de água escorrendo, mesmo incipiente, pelas ribanceiras. Agora sei por que, quando criança, deixava-me conduzir por esses sons e me perdia no meio do mato.
Abro os olhos. Preciso saber como estão as flores dos cardeiros. Vagueio por onde imagino encontrá-los. Lá estão eles preparados para transformar fevereiro em primavera. Como mudam com as chuvas nossos resistentes cardeiros! Até aqueles que parecem sucumbir estão prestes a florir! E eles não se fazem sós. Há companhias. O Sertão do Seridó começa a mudar sua tonalidade com as primeiras chuvas do ano.
Olho para cima. O sol ainda não deu as caras. Hás razões para tanta preguiça. Hoje ele pode acordar mais tarde.
Percorro o caminho de volta. A feira me espera. A euforia na feira livre do sábado segue com as comemorações. As banquinhas com caldos, paneladas, buchadas e fritadas de carneiro atraem os compadres e as comadres para os festejos. As lapadas de cachaça e conhaque de alcatrão com limão se multiplicam. Logo aparece um sanfoneiro com seu fole tocando um xote. O som das zapragatas de couro faz coro com o canto e as vozes animadas.
É assim quando chove no Sertão do Seridó!
Já é visto um pinguim d’água
No entorno de minha casa.
E é servido uma lapada
De samanau, cachaça!
Gilberto Costa
Imagem: Gilberto Costa