CRONICA

Silêncio

Ele entrou na sala como quem acredita que o amor precisa pedir licença. Passos firmes demais, palavras duras demais. Talvez nunca tenha aprendido que corações não se conquistam pela altura da voz, mas pelo cuidado do silêncio.

Há quem confunda amor com poder. Quem pense que amar é dominar, corrigir, diminuir. Mas o amor — esse bicho manso e valente ao mesmo tempo — só se deita onde há respeito. Ele não floresce em terreno pisoteado. Ele precisa de espaço, de escuta, de mãos que saibam acolher antes de apontar.

Ela o olhava tentando entender em que momento o afeto virou disputa. Quando o toque virou ordem. Quando o “nós” virou palco para um ego solitário. Amar não deveria doer assim. Não deveria encolher ninguém.

Porque amor de verdade não se impõe. Ele se oferece. Não grita, sussurra. Não se acha maior, se faz igual. E quem ama aprende — mesmo tropeçando — que ninguém cresce diminuindo o outro.

Talvez ele ainda descubra que a arrogância afasta o que o coração mais deseja. Que não há romance possível onde falta gentileza. Que o amor não pede que alguém se curve, apenas que caminhe ao lado.

E se um dia ele voltar mais leve, menos cheio de si, talvez encontre o amor ainda ali, paciente. Ou talvez não. Porque o amor também sabe ir embora quando percebe que não é tratado como morada, mas como território.

Romance não é vencer. É cuidar. É permanecer sem ferir. É caber no outro sem apagar quem se é.

E isso, no fundo, é o mais bonito gesto de amor que existe.

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